Cheguei a Timor em Novembro de 2012, sentindo que Deus me chamava a servir este povo de uma forma mais permanente. Não fui eu que escolhi Timor, mas sim Timor que me convidou a vir, através do Voluntariado Teresa de Saldanha, ligado às Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, presentes em Timor desde o ano de 2004.

Quando cheguei sabia que o meu trabalho ia ser desenvolvido em Hola-Rua, Same, onde a comunidade iria abrir uma nova casa. Por isso, sinto que trabalhar num local onde nada ainda existe é mais enriquecedor. Em Janeiro começamos a conhecer esta nova realidade, uma das mais pobres de Timor e onde assistência espiritual é reduzida. Percebemos que para além do apoio a nível espiritual, a grande necessidade era existirem actividades complementares à escola para as crianças, sobretudo a nível da Língua Portuguesa.

Desta forma, iniciamos o ATL onde as crianças do 1º ao 5º duas vezes por semana, trabalham a língua portuguesa, mas também brincam com brinquedos, jogos didácticos, vêem filmes, dançam, fazem pequenos teatros e aprendem a rezar. Contudo, apenas conseguimos receber no ATL uma pequena parte das muitas crianças que existem Hola-Rua, pois só este suco (freguesia) tem cerca de 15 mil residentes. Quando se conseguir construir o Centro Comunitário definitivo, então podemos acolher mais crianças e também promover a mulher, através da aprendizagem de costura, bordados, artesanato, informática, etc.

No âmbito da assistência espiritual, iniciámos a distribuição da Sagrada Comunhão todos os domingos, a primeira vez na Páscoa, onde mais de 80 pessoas comungaram, após terem recebido o sacramento da reconciliação. Muitas destas pessoas julgavam nunca mais poderem receber Jesus, e quando perceberam que o iam receber semanalmente transmitiram-nos uma alegria indiscritível. O número de doentes foi aumentando, ao ponto de que para todos possam comungar semanalmente, tivemos que pedir ajuda aos seminaristas que trabalham na paróquia. Para mim, é uma grande graça perceber a alegria das pessoas que nos esperam todos os domingos, sobretudo que esperam Jesus.

Os jovens e adolescentes também merecem a nossa atenção, pois como não há catequese sistemática, fazem preparações intensivas para os sacramentos, pediram-nos para os ajudarmos espiritualmente. Assim, a Ir. Céu Mateus com quem trabalho na missão de Same, acompanha os jovens e eu acompanho o grupo de adolescentes. A língua é sem dúvida o maior obstáculo, mas conseguimo-nos fazer entender. A grande necessidade que sentem é de formação catequética, de ler o evangelho, de o compreender, de perceberem que Deus não é alguém distante, mas que faz caminho connosco. Assim, todos os sábados há um tema que é desenvolvido e numa segunda parte é lido e explicado o evangelho do domingo. Também começam a conhecer novas formas de rezar, para além das fórmulas, nomeadamente a oração de Taizé.

Nestes quase 10 meses em terras de missão, fica a certeza que vale a pena deixar tudo para vir fazer a vontade de Deus. O sorriso e alegria das crianças que encontramos e com quem trabalhamos, dos doentes que visitamos e levamos ao hospital, das pessoas a quem levamos Jesus, vale tudo o que possamos ter deixado na nossa terra. É saber que para estas pessoas somos a presença de Jesus, que por nós Ele se torna mais próximo delas. Que por muito que lhe demos, nada se pode comparar com o que recebemos delas. Como diz Teresa de Saldanha: “esquece-te de ti sempre, para pensar em fazer o bem ao próximo”.

Ana Margarida Lucas