TESTEMUNHOS | IRMÃ RITA MARIA DE ASSIS

A Irmã Rita Maria de Assis

Tenho 27 anos e estou há 6 anos no Mosteiro do Imaculado Coração de Maria, em Lisboa, pertencente à Ordem das Irmãs Pobres de Santa Clara, mais vulgarmente conhecidas por Irmãs Clarissas. Fiz a Profissão Religiosa, de Votos Temporários há pouco mais de 2 anos, no dia 2 de Julho de 2017.

 

Vocação

Nasci em Lisboa, numa família católica, tenho dois irmãos mais novos. Foi no seio da família que ouvi pela primeira vez falar de Deus. Andávamos na catequese, íamos à Missa. Tenho consciência do papel que a minha Família ocupou e ocupa no desenvolvimento da minha vocação. Ainda hoje me sinto muito sustentada pela oração dos meus Pais e Avós que me acompanham nesta mesma doação a Deus. Não fui só eu que assumi esta forma de vida, sinto que eles também a assumiram comigo, no concreto da sua missão e estado de vida.

A pergunta “Senhor que queres que eu faça?” apareceu pela primeira vez aos 16 anos, e foi crescendo à medida dos convites que Deus me fazia na Paróquia, ora para colaborar na catequese, no grupo pós-crisma, nos encontros de jovens da vigararia de Torres Vedras, até chegar à colaborar como animadora nos Luzeiros, que são campos vocacionais para raparigas, realizados no Seminário de Penafirme. Fui-me deixando interpelar pelo Senhor que me convidava a colocar a minha vida nas Suas mãos, e a deixar que fosse Ele a moldá-la, segundo a Sua Vontade. E Deus foi-Se revelando, em sinais, em acontecimentos, em peregrinações. No meu coração, surgia um desejo “Ser tudo para todos”, ter um coração indiviso. Como fazer?

 

Deus mostra – oração + adoração eucarística + oração de intercessão

Eu descobri o tesouro da oração na minha Paróquia. Deixei-me impressionar pela fidelidade do povo à oração… Ali descobri o tesouro da Adoração Eucarística…. Questionava-me acerca do que faziam as pessoas ali todos os dias… e comecei a ir também…. E dia após dia, não sei explicar bem como, Jesus foi-me apanhando o coração. Ele é um cavalheiro elegante…. Sabe fazê-las… e soube fazer muito bem, tão bem que eu nem sei explicar como. Eu tinha os meus sonhos, os meus projectos, como qualquer rapariga…. Mas dia após dia, deixei-me cativar por esta Presença silenciosa e amorosa de Jesus, que através da Adoração Eucarística me abria o Seu Coração, me chamava à Sua intimidade…. Comecei a rezar.

Já mais tarde, ao vir para a universidade, experimentei o valor da oração de intercessão. Eu estudava economia, na universidade Nova, que na altura ficava em Campolide, no edifício anexo à igreja Paroquial de Campolide. E comecei a ganhar o hábito de, quer antes de entrar na faculdade, quer depois de sair, em cada dia, ir à igreja fazer uma visita a Jesus… confiar-lhe o meu dia, entregar cada um dos meus colegas, com nomes concretos… pedir pelas suas necessidades…. E começava a ver que Jesus actuava na faculdade, e que pequenos-grandes milagres foram acontecendo. Colegas que se abriam à possibilidade da Fé, que pediam para ser Batizados, que voltavam à Igreja, que se ofereciam para me acompanhar nas minhas visitas a Nosso Senhor…. “Isto de rezar parece que funciona”….

E Deus continuou a conduzir-me e desta vez fez-me desejar encontrar um “lugar de oração”, onde eu pudesse rezar, em Lisboa, durante este meu percurso universitário. Procurava um lugar de oração, eis que me deparei com um mosteiro de vida contemplativa, mesmo no centro da cidade. Interpelou-me aquele pequenino rebanho fiel, que ali na capela rezava diária e constantemente…. Oração de Intercessão, Adoração Eucarística, Vida toda para Deus…. Mas eu estava longíssimo de imaginar, de sonhar que ali Deus me esperava!

Comecei a frequentar a capela das Irmãs, a capela…! Só a capela e o quarto da Jacinta… durante quase 2 anos creio que “evitei” falar com alguma irmã.

Nesta altura, eu estava integrada em vários grupos do Patriarcado, colaborava nos Luzeiros, também participava nas Terças.com Vocação raparigas, na Igreja de Nossa Senhor de Fátima, na Pastoral Universitária… E se por um lado crescia em mim a sede de estar com Jesus, no silêncio e na oração, eu estava metida em 1001 actividades ao mesmo tempo. Movida por um grande fervor apostólico, tinha uma agenda sempre cheia e na minha pouca humildade, orgulhava-me disso…!

Para que Jesus me cativasse com a proposta de “uma vida feita oração”, Ele ainda iria ter muito que trabalhar, porque eu não estava predisposta a essa mudança radical. Este foi o maior desafio, creio… descobrir Jesus como o Único Necessário! E Ele foi-se revelando assim… capaz de preencher o meu coração.

 

Deus explica – clausura

A história da minha vocação foi sendo escrita pelo Amor gratuito de Deus… sinto que aos poucos Ele me foi conduzindo, explicando e abrindo o coração para acolher a Sua Vontade.

Por exemplo, já depois de intuir que Deus me queria toda para Ele, na Vida Consagrada, e mais concretamente na vida Contemplativa, colocava-se a questão da clausura. Este tema da “clausura” assusta sempre um pouco, parece-me… e eu também passei por este medo: Será possível a vida toda?! “Só Deus basta”, mas…. E será que basta mesmo?!… E mais uma vez, Nosso Senhor na Sua infinita misericórdia, vem ao meu encontro para me responder a estas questões… coloca-se comigo a caminho, como outrora com os discípulos de Emaús. Eu estava nas Jornadas Mundiais da Juventude, no Rio de Janeiro, em 2013. Recordo que estávamos sentados numa esplanada e deu meio-dia. Com uma amiga, rezámos o Angelus, e no final reparei numa parede grafitada, onde estava escrito: “Dizem que há mundos lá fora que nem em sonhos eu vi. Mas o que me importa o mundo todo se o meu mundo é todo aqui?”. Não foram precisas mais explicações…. O coração ardeu-me, sentia que era Nosso Senhor a explicar-me que Ele é tudo e fora d’Ele não há nada. Então, para quê temer e resistir a uma Vida totalmente mergulhada n’Ele?! Insensato seria trocar o Todo pela parte…. Eu reconheci-O ali, a falar-me naquela parede grafitada… E 3 meses depois entrei no Mosteiro…. “o meu mundo é todo aqui”. Jesus é o Todo, o Total, o Único Necessário.

 

No Patriarcado de Lisboa

A história da minha vocação está mesmo muito ligada ao Patriarcado. Posso mesmo dizer que me sinto “Filha” do Patriarcado de Lisboa. Foi nesta Igreja de Lisboa que eu recebi o Dom da Fé e que me senti tantas vezes amparada pela Fé de outros… sacerdotes, religiosas, catequistas, famílias da paróquia. Na Igreja de Lisboa experimentei o rosto da Mãe Igreja que crê, e que assim suporta, nutre e sustenta a minha Fé.

E assim, creio que Deus também foi colocando no meu coração este sentido de Missão na Diocese, ao serviço da Igreja de Lisboa, que me tinha acompanhado no crescimento da Fé. Com o desejo de que através da minha vida entregue também outros pudessem fazer esta experiência de ser Igreja. Ia crescendo no meu coração o sentido de missão eclesial, e de uma missão que passava muito pela intercessão. Como conciliar estas duas inquietações que sentia ser Deus a colocar no meu coração?! Ser Missionária, numa vida/missão feita oração! A resposta encontrei-a na vida contemplativa, cuja missão passa por levar os homens até Deus, através de uma vida feita imolação, feita oração, feita silêncio, feita doação…

 

Porquê?

A única razão de Deus para me ter escolhido foi o Seu Amor gratuito.

Irmã Rita Maria de Jesus, novembro de 2019

 

Sobre a Ordem das Irmãs Pobres de Santa Clara (Irmãs Clarissas)

A Ordem de Santa Clara é uma ordem religiosa feminina – a segunda das Três Ordens Franciscanas – fundada em 1212 por São Francisco de Assis e Santa Clara de Assis, na cidade de Assis (Itália).

No Mosteiro do Imaculado Coração de Maria, estão actualmente 6 irmãs, vivendo o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo em castidade, obediência, sem nada de próprio e em clausura.

Ao serviço da Diocese de Lisboa, a vida contemplativa é o seu primeiro e fundamental apostolado, porque é a sua maneira exemplar e própria, segundo o plano peculiar de Deus, de ser Igreja, de viver na Igreja, de realizar a comunhão na Igreja, de cumprir a missão na Igreja, para que “Deus seja tudo em todos”.